Valor Simbólico Em Libras: Peirce, Signos E Convenção Social
O conceito de valor simbólico desempenha um papel crucial na compreensão da Língua Brasileira de Sinais (Libras), especialmente quando se trata da representação de referentes ausentes. Mas, o que exatamente é valor simbólico? E como ele se conecta com a maneira como os surdos se comunicam e constroem significado? Para responder a essas perguntas, mergulharemos nas ideias de Charles Sanders Peirce sobre signos e na importância da convenção social na comunicação. Vamos explorar como os sinais em Libras, como símbolos, se relacionam com o mundo e como a ausência de um referente físico é superada através da linguagem.
A Essência do Valor Simbólico
O valor simbólico, em sua essência, refere-se ao significado que atribuímos a algo que não é inerente a ele. Em outras palavras, um símbolo não possui uma relação direta e óbvia com o objeto ou conceito que representa. A conexão é estabelecida através de convenções sociais e culturais. Pense, por exemplo, em uma bandeira nacional. Ela não é apenas um pedaço de tecido colorido; ela representa a nação, a história, os valores e a identidade de um povo. O valor simbólico da bandeira é construído através do tempo, da educação e da experiência compartilhada. Da mesma forma, em Libras, os sinais não são meras representações literais de objetos ou ideias. Eles carregam um valor simbólico que é compartilhado e compreendido pela comunidade surda. Esse valor simbólico permite que os surdos se comuniquem sobre coisas abstratas, eventos passados, conceitos complexos e até mesmo sobre o que não está presente no momento da comunicação.
No contexto da Libras, o valor simbólico é particularmente relevante na representação de referentes ausentes. Referentes ausentes são coisas, pessoas, lugares ou ideias que não estão fisicamente presentes no momento da comunicação. Como, por exemplo, lembranças, sonhos, previsões futuras e até mesmo conceitos abstratos como “amor”, “justiça” ou “liberdade”. Como os surdos conseguem se comunicar sobre esses referentes ausentes? Através do uso habilidoso de sinais que carregam valor simbólico. A escolha de um sinal específico, a forma como ele é produzido, a sua localização no espaço e a expressão facial do sinalizador contribuem para a construção do significado. O valor simbólico é a chave para a comunicação sobre o que não está presente, permitindo que os surdos compartilhem experiências, conhecimentos e emoções.
Peirce e a Teoria dos Signos
Para entender o valor simbólico em Libras, é fundamental recorrer à teoria dos signos de Charles Sanders Peirce, um dos fundadores da semiótica. Peirce dividiu os signos em três categorias principais: ícones, índices e símbolos. Os ícones são signos que se assemelham ao objeto que representam (por exemplo, um desenho de um cachorro). Os índices são signos que têm uma relação de proximidade ou causalidade com o objeto (por exemplo, fumaça é um índice de fogo). E, finalmente, os símbolos são signos cuja relação com o objeto é arbitrária e baseada em convenções (como as palavras em uma língua falada ou os sinais em Libras). Em Libras, muitos sinais são símbolos, pois sua relação com o referente é estabelecida pela comunidade surda através do uso e da prática.
O conceito de símbolo em Peirce é crucial para entender o valor simbólico. Os símbolos não têm uma relação natural com o objeto que representam; sua conexão é aprendida e aceita pela comunidade. Em Libras, os sinais que representam conceitos abstratos, emoções e ideias são exemplos de símbolos. A compreensão e o uso correto desses símbolos dependem do conhecimento da língua e da cultura surda. A teoria de Peirce também enfatiza que o significado de um signo não é fixo, mas é construído e negociado no processo de interpretação. Um sinal em Libras pode ter diferentes significados dependendo do contexto, da expressão facial do sinalizador e do conhecimento compartilhado entre os interlocutores.
A Importância da Convenção Social
A convenção social desempenha um papel fundamental na comunicação em Libras. As convenções são os acordos implícitos e explícitos que uma comunidade de falantes de uma língua compartilha sobre o significado dos sinais, a gramática, a pronúncia e o uso da língua. Em Libras, as convenções sociais são estabelecidas pela comunidade surda, que desenvolve e compartilha um sistema de sinais único. Essas convenções garantem que os sinais tenham um significado comum e que a comunicação seja eficaz. Sem convenções sociais, a comunicação em Libras seria impossível. Os sinais seriam interpretados de maneira diferente por cada indivíduo, e o significado seria ambíguo e confuso.
As convenções sociais em Libras incluem a gramática, a sintaxe, a morfologia, o léxico e a pragmática. A gramática e a sintaxe da Libras são diferentes das línguas faladas, e os sinais são organizados em uma ordem que pode ser diferente da ordem das palavras em português. A morfologia da Libras envolve a modificação dos sinais para indicar tempo, número, aspecto e outros aspectos gramaticais. O léxico da Libras consiste em um conjunto de sinais que representam palavras, conceitos e ideias. E a pragmática da Libras envolve o uso apropriado dos sinais em diferentes contextos sociais e culturais. A aquisição e o domínio dessas convenções sociais são essenciais para a comunicação eficaz em Libras. A capacidade de usar a língua de acordo com as convenções da comunidade surda é o que permite aos surdos se comunicarem sobre qualquer assunto, incluindo referentes ausentes.
Representando Referentes Ausentes em Libras
A representação de referentes ausentes em Libras é um processo complexo que envolve o uso criativo de sinais e a aplicação das convenções sociais da língua. A ausência de um referente pode ser superada através de várias estratégias, incluindo o uso de sinais que carregam valor simbólico, o uso de classificadores, a descrição, a espacialização e a expressão facial. Os classificadores são sinais que representam categorias de objetos, pessoas ou lugares. Por exemplo, um classificador pode representar um carro, uma pessoa andando ou uma árvore. A descrição envolve o uso de sinais para descrever as características do referente ausente, como cor, tamanho, forma e função. A espacialização envolve o uso do espaço físico para representar o referente ausente, como a localização de um objeto ou a relação entre duas pessoas. A expressão facial desempenha um papel crucial na Libras, pois transmite emoções, atitudes e intenções que ajudam a construir o significado dos sinais.
Quando um surdo fala sobre um evento passado, por exemplo, ele pode usar um sinal que representa o evento, mas também pode usar classificadores para representar as pessoas envolvidas, descrições para detalhar o que aconteceu, a espacialização para indicar o local e a expressão facial para mostrar a emoção. O valor simbólico dos sinais, a gramática da Libras, o conhecimento compartilhado e a criatividade do sinalizador se combinam para criar uma imagem vívida do evento. A representação de referentes ausentes é um processo dinâmico e interativo que envolve a negociação constante de significado entre os interlocutores. A compreensão do valor simbólico e das convenções sociais da Libras é fundamental para a comunicação sobre o que não está presente.
Exemplos Práticos e Conclusão
Vamos a um exemplo prático. Imagine que um surdo está contando uma história sobre uma viagem que fez à praia. Como ele faria isso em Libras? Ele provavelmente usaria sinais para “praia”, “sol”, “mar”, “areia”, “nadar”, “peixe”, etc. Mas como ele se comunicaria sobre a experiência de sentir a areia quente sob os pés ou o cheiro da maresia? Ele usaria o valor simbólico dos sinais, a expressão facial e a espacialização. Por exemplo, ele pode usar um sinal para